sábado, 25 de dezembro de 2021

vizinhança

quando eu era pequena havia, na vizinhança, uma casa da qual eu apreciava muito. era uma casa bem grande, bonita, com um belo jardim entornando-a. contemplar a sua vista me gerou boas lembranças, apesar de eu nunca ter morado lá.

recentemente, passando por ela, percebi que o lugar continua o mesmo. apesar de eu ter gostado dessa casa no passado, isso me gerou uma leve decepção. isso aqui me parece um pouco antiquado. e eu achei que a construção, como um todo, era maior. eu cresci, será?

o jardim também não tem nada de mais. ainda assim, não convém criticar um jardim que possui um só tipo de planta. ao menos me parece um jardim esforçado.

e assim, a imagem da bela casa se despedaçou na minha memória. servindo pra compreender a limitação de uma criança e suas poucas referências. me fazendo entender, também, que eu era uma criança que via beleza nas coisas. continuo fazendo isso, só sou mais criteriosa.

que bom.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

vasos

homens são como vasos grandes em cima de mesas pequenas. vasos pesados de porcelana, lindos vasos.

e o que você faz com isso?

a construção social de uma vida inteira te fez apreciar esses vasos. chega uma hora que você pega um nas mãos e não sabe o que dá mais trabalho: segurar ou colocar de volta na mesinha. porque vai cair, porque é pesado, porque é frágil apesar de não parecer, porque várias coisas. quem mandou mexer também né? ele tava lá sossegado cumprindo a função dele com alegria, não foi feito pra ficar mexendo.

então você coloca o vaso de volta com cuidado, sai da sala, respira e vai fazer outra coisa. vai mexer com algo que permita maior e melhor interação. não faltam objetos para isso.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

cão

sempre me orgulhei do seeking. e também sempre tive admiração por quem o tem. onde está a sua força? o que te faz acordar cedo pela manhã? me fale sobre seus planos, ao menos seus sonhos.

paciência. presença. empatia. simpatia. me fale sobre você, eu me interesso.

e como um cachorro eu sigo alerta, interessada, disposta. mas eu tenho pensado em morder alguém. ou melhor, eu tenho planejado. tenho treinado, tenho calejado o cão que tem a capacidade de permanecer parado e morder sem avisar. qual cão você alimenta, enfim?

rage. está aqui dentro. e às vezes aparece. e eu sou grande.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

everything

is this the moment where i look you in the eye?
forgive my broken promise that you'll never see me cry
and everything, it will surely change even if I tell you I won't go away today

will you think that you're all alone
when no one's there to hold your hand?
and all you know seems so far away
and everything is temporary, rest your head
i'm permanent

ouvindo: permanent - david cook

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Nojo

Você tem sorte de às vezes eu ter vontade de sair com você. Quando não tem mais ninguém pra chamar. Quando eu sei que você vai aceitar qualquer programa a qualquer hora e ainda por cima vai querer pagar e me buscar. Eu tenho um pouco de nojo de encostar em você e também do seu cheiro, pra falar a verdade. Se alguém falar a palavra sexo quando você estiver por perto talvez eu vomite. Hahaha não, não vamos falar de amor. Isso não existe mais, você quer que eu desenhe pra conseguir explicar? Quer que eu use gráficos? Talvez eu tenha te amado, mas eu era sem noção. Hoje eu tento te respeitar por dó. Sim, dó. Você é digna de pena, gorda inútil. Bom, não tão inútil, você tem um trabalho legal. Mas já perdi muito tempo precioso aqui falando. Você não vale meu tempo. Sai.

sábado, 9 de abril de 2016

sozinha

a melhor parte de estar sozinha é se sentir sozinha. você precisa estar sozinha para escrever? eu preciso escrever para estar sozinha. e isso é lindo.

a apreciação vem aos poucos. depois de um tempo tendo que conviver comigo forçosamente consigo sentir o gosto e o cheiro das coisas novamente.

lembra da época que eu dirigia ao léu de madrugada ouvindo u2? era bom hein. coldplay. ludovico. minhas melhores lembranças solitárias incluem vento frio e músicas que ninguém mais ouviria por mais de meia hora. livros que não interessariam quase ninguém. piadas que só eu entendo.

lugares ficam mais interessantes quando descritos. pessoas ficam mais instigantes quando são personagens. o mundo fica com um cheiro bom quando é criado. lembranças geram uma cor legal quando misturadas.

mundo novo. de novo e de novo. fora e dentro.

ouvindo: the scientist - coldplay

sábado, 26 de março de 2016

quieto

triste é falar com quem já não está aqui, é rir com quem já não vê mais graça, é encostar em quem já não sente nada, é estar do lado de quem está muito longe.

humilhante é lutar quando ele já arrumou as malas, é tirar a roupa pra quem já calçou os sapatos, é oferecer algo a quem fechou a porta.

é frio, é azedo, é amargo, é quieto.

quieto é andar sozinha de novo, é saber que errei de novo, é saber que eu não sirvo de novo, é ouvir que eu sou legal de novo.

estou em silêncio. estou amarga. estou sem esperanças. estou sem vontade de continuar fazendo tudo dar errado.

não quero mais sair daqui, não quero um lugar maior, não quero prejudicar nenhuma criança, não quero entristecer nenhum cachorro.

não aguento mais essa vida descartável, não aguento mais não servir mais, não aguento mais ser jogada no lixo.

faz silêncio, sinto dor.

mereço tudo isso, é mais de uma década, é cada vez mais amargo, é cada vez mais frio, é cada vez mais quieto.

preciso trabalhar, preciso comprar livros pq senão dói.

por favor, não traga mais ninguém. eu não aguento mais.

não traga mais ninguém, não leve mais ninguém, me deixe em paz.